Mais um conto de aventureiro para o Contos do Baú, temos a honra de publicar Coisa Viscosa de Ricardo Porto, que já por duas boas vezes mestrou no fórum sobre seus contos de horror. Espero que apreciem o conto, e lembrando: para os que desejem publicar seu conto também, basta mandar um e-mail para [email protected] com o título “Contos do Baú“.


 

Ao sair do metrô, Adroaldo levou uma cagada de um pombo na cabeça. Ao sentir o golpe molhado em seu penteado impecável, blindado com grossa camada de gel, nem passou a mão para verificar. Já conhecia a sensação, havia pombos demais na área.

Iria sujar as mãos pra quê?

Foi voando para o trabalho. Ainda teria de andar um bocado para chegar e estava atrasado. Bateria o ponto e daí pro banheiro conferir o estrago e se poderia fazer alguma coisa à respeito. No caminho, percebia pessoas lhe olhando com estranhamento, surpresa ou repulsa. Ignorava à todos, mas um homem lhe segurou pelo braço e tentou lhe dizer o óbvio, apontando para o alto de sua cabeça, os olhos fixos no local da imundície. Odiava isso. Com um repelão lhe gritou na cara “eu sei, me fodi, pensa que não estou sentindo?”

Todos na estação passaram a lhe olhar e apontar, ao menos com os olhos.  O burburinho crescendo conforme passava pelos transeuntes murmurantes. Parecia que falavam mais alto pelas suas costas, talvez temendo novo escândalo, mas não. Não daria essa satisfação à plebe rude. Já sentia o rosto vermelho de raiva e uma grossa gota de suor lhe escorria pela têmpora.

Chegando ao trabalho passou reto pelo porteiro que o encarava com olhos arregalados. Porque não podiam deixá-lo em paz? Será que ser alvo dos dejetos de um pombo já não era suficiente? Gente ridícula. Assim que comprasse um carro lhe aplicaria o insulfilme mais escuro que a lei permitisse para poder se separar melhor dessa massa de desocupados. Bateu o ponto, avistando já com o canto do olho gente se cutucando e lhe fitando a cabeça. Sentia-se tonto. Decerto pressão alta causada pelo misto de asco e ódio crescente que nutria pelos desgraçados que o cercavam.

Foi direto pro banheiro.

Cruzou com um homem que saía do banheiro. Este se deteve por um instante, olhou repentinamente para o alto da cabeça de Adroaldo e deu um pequeno grito abafado com o próprio punho. “É, é, caralho, vou tirar essa merda daí assim que você sair da minha frente”. O homem se afastou visivelmente horrorizado e Adroaldo achou que seu ambiente de trabalho já esteve mais bem frequentado no passado, mas estava com muita pressa para considerações gerais acerca de gente inferior.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo choque brutal que seu reflexo no espelho lhe deu. Em cima de sua cabeça estava uma gosma verde e semitransparente, do tamanho de uma toranja grande, sendo que através dela se podia ver que a coisa havia devorado seus cabelos e pele onde estava fixada, e sua calota craniana estava bem à vista. Os ossos estavam tão limpos que podia ver a sutura sagital claramente. Não era sangue que escorrera mais cedo na estação: era um grosso filete de sangue, já coagulado.

Custava-lhe acreditar no que via. Pôs as duas mãos na coisa em sua cabeça, mas ela não saía. Era como tentar segurar óleo. Suas mãos entravam e saíam da coisa, mas não a retiam. Trancou a porta do banheiro por dentro e enfiou aquilo embaixo da torneira com dificuldade abaixando sua cabeça como se quisesse lavar os cabelos ali. A água não a afetava.

Era bizarro. O seria aquilo? Algum elemento químico que se derramou de algum vagão? Um monstro alienígena que caíra do céu? Porque nem mesmo sentia dor com tanto tecido vivo digerido em sua cabeça? De repente entendeu que estava tonto porque a coisa deveria estar lhe bebendo o sangue. Por isso tão pouco escorrera. Precisava se acalmar e encontrar um médico. Que especialista poderia lhe ajudar?

Tentou remover aquilo com a ajuda do paletó. Como foi igualmente impossível – a roupa só ficara molhada com o óleo da monstruosidade – ele enrolou tudo na cabeça com uma espécie de turbante e saiu correndo do trabalho. Estava ridículo. Havia se conferido no espelho do banheiro, mas era melhor do que se tornar uma aberração de circo ambulante.

Pegou um táxi.

O taxista tentou puxar conversa, mas Adroaldo não estava interessado em colóquio. Desejava se ver livre daquilo que estava já lhe roendo o crânio. Podia sentir. Não era dor, mas uma leve sensação de raspagem. O monstro possuía alguma parte dura para raspar? Se sim, não pôde senti-la ou vê-la.

No hospital fora atendido com presteza surpreendente para um hospital público. Para sua surpresa, já sabiam o que estava acontecendo com ele, que foi conduzido à uma ala cheia de pessoas na mesma situação. Todos estavam em camas de hospital, lençóis brancos, lado a lado. Todos recebiam transfusão de sangue. Todos tinham um acompanhante.

Menos Adroaldo.

Conto por Ricardo Porto.


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